Uma pesquisa com bebês realizada pela Universidade de Washington mostra que os sons da fala estimulam as áreas do cérebro que coordenam e planejam os movimentos motores utilizados para falar

por Philipp Narten, em 24 de julho de 2014, às 12:45h
(publicado em “Hearing Review” em 22 de julho de 2014)

 


 

Você sabia que os bebês podem diferenciar sons do português  entre as demais línguas até os oito meses de idade? É nesta fase que o cérebro do bebê começa a se concentrar apenas nos sons que ouvem a seu redor, principalmente no que diz respeito à fala. Ainda não está claro como essa transição acontece, mas as interações sociais e o uso do  “manhês” , aquele estilo de comunicação estabelecido entre  os pais ou cuidadores e o bebê nos primeiros meses de vida caracterizado pela fala rica em entonação, parece ajudar.
 

Um bebê de um ano de idade sentado em um equipamento de scanner cerebral faz uma magnetoencefalografia, uma técnica não-invasiva utilizada para medir a atividade cerebral. O bebê ouve, com fones de ouvido, sons da fala como “da” e “ta” enquanto os pesquisadores gravam o registro das atividades cerebrais.
 

Uma pesquisa da Universidade de Washington realizada com bebês de sete e onze meses de idade mostra que os sons da fala estimulam as áreas do cérebro que coordenam e planejam os movimentos motores utilizados para falar.
 

O estudo, publicado em 14 de julho deste ano nos Anais da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos da América, sugere que o cérebro do bebê começa desenvolver o  trabalho de preparação para a fala  antes mesmo de começar a falar, o que pode influir na evolução do desenvolvimento cerebral.
 

“A maioria dos bebês balbucia aos sete meses de idade, mas só fala as primeiras palavras depois do primeiro ano”, disse a Dra. Patricia Kuhl, principal autora do estudo e co-diretora do Instituto de Aprendizagem e de Ciências do Cérebro da Universidade de Washington. “Verificar a ativação de áreas motoras do cérebro quando os bebês estão simplesmente escutando é muito significativo, porque indica que os cérebros dos bebês estão envolvidos desde o início do seu desenvolvimento na tentativa de falar e sugere, ainda, que os cérebros dos bebês de sete meses de idade já estão tentando descobrir como articular os movimentos corretos que irão produzir a fala”, acrescentou.
 

A Dra. Patricia Kuhl e sua equipe de pesquisa acredita que este treinamento do planejamento motor contribui para realizar a transição para a fase quando os bebês se tornam mais sensíveis à lingua materna.
 

Os resultados enfatizam a importância de se falar com as crianças durante as interações sociais – mesmo que eles ainda sejam incapazes de responder.
 

“Ao nos ouvir falar,  certas áreas dos cérebros dos bebês são estimuladas e exercitadas, indo além do que pensávamos que acontecia quando falamos com eles”, diz a Dra. Patricia Kuhl. “Os cérebros dos bebês os estão preparando para agir no mundo, ensaiando a fala antes mesmo que digam a primeira palavra”.
 

No estudo, 57 bebês (de sete e de onze a doze meses de idade) individualmente escutavam uma série de sílabas encontradas em sua língua materna e em uma língua estrangeira, como “da” e “ta”, enquanto os pesquisadores gravavam as reações de seus cérebros. Eles foram então submetidos a uma magnetoencefalografia (MEG) para medir a ativação do cérebro enquanto ouviam sons em inglês e em espanhol.
 

Os pesquisadores observaram atividade cerebral em uma área auditiva do cérebro chamada giro temporal superior, assim como na área de Broca e no cerebelo – regiões corticais responsáveis pelo planejamento motor dos movimentos articulatórios necessários à fala.
 

Este padrão de atividade cerebral ocorreu, no caso dos bebês de sete meses de idade, tanto para sons em língua materna (inglês) quanto para sons em língua estrangeira (espanhol). O que demonstra que, mesmo nessa idade tão precoce, os bebês respondem a todos os sons da fala, independentemente de já terem ou não os escutado anteriormente.
 

Nos bebês mais velhos a ativação cerebral foi diferente. Por volta dos onze, doze meses de idade, os cérebros dos bebês reagem com uma maior ativação a sons em língua estrangeira, o que os pesquisadores interpretam como sendo o esforço adicional realizado pelo cérebro do bebê para tentar prever quais movimentos criam a fala em língua estrangeira. Isto reflete o efeito da experiência acumulada pelo bebê entre os sete e os onze meses de idade e sugere que esta ativação nas áreas motoras do cérebro contribui para a evolução da percepção da fala.
 

O estudo tem implicações sociais, ao sugerir que o “manhês” arrastado e exagerado – “Óóóóó! Cadêêê o nenê da mamããããe?” – pode na verdade auxiliar o bebê a absorver a pronúncia dos sons e imitar o que ouvi, balbuciando algo como “Aáááá bábá báááá babááááá”.
 

O “manhês” é bem exagerado e, quando os bebês o escutam, seus cérebros podem planejar /modelar mais facilmente os movimentos necessários para falar”, diz a Dra. Patricia Kuhl.
 

O estudo dao LIFE Center da  Universidade de Washington foi financiado pela Bolsa do Programa de Ciência da Aprendizagem da Fundação Nacional de Ciência dos EUA.
 

Fonte: Instituto da Aprendizagem e de Ciências do Cérebro da Universidade de Washington

Fale Conosco

Mande suas dúvidas e sugestões para nós!

Enviar