Meu filho está demorando para aprender a falar. Isto é um problema?

Crianças que não desenvolvem a fala até os três anos de idade não necessariamente têm grandes problemas. Mas caso a situação persista a partir desta idade é necessário observar a questão de forma mais atenta.
 
 
O primeiro ponto para os pais é não comparar o desenvolvimento dos seus filhos com o de outras crianças. Aquelas que verbalizam pouco até os três anos podem, de forma repentina, começar a falar e em pouco tempo chegar ao mesmo patamar de desenvolvimento dos amiguinhos da mesma idade. Mas o problema pode ser persistente e, nestes casos, é importante a avaliação de um pediatra e de um fonoaudiólogo.
 
“Os atrasos na fala podem ter diversas razões. Em primeiro lugar é observar que tipo de problema está se desenvolvendo. A criança pode balbuciar sons diversos mas não conseguir verbalizar palavras. Ou então pode já verbalizar algumas palavras e não conseguir concatenar frases mais complexas e se comunicar de forma adequada com os adultos ao seu redor. Cada um destes tipos de atraso pode ter origens diferentes”, explica Jaime Zorzi, especialista em Linguagem e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (SBFa).
 
Um dos problemas associados com o atraso na linguagem são aqueles intrínsecos à criança, como fatores genéticos. Nestes casos, o histórico familiar precisa ser avaliado. Os pais ou familiares podem ter tido o mesmo na infância e isto pode ser um traço do desenvolvimento na família. “Este atraso, portanto, é natural e esperado”, explica o especialista.
 
Fatores ambientais
 
Um fator importante para o desenvolvimento da linguagem é o ambiente em que a criança se encontra. A fala precisa ser exercitada e o ambiente familiar é primordial para isso. “Famílias pouco comunicativas e que interagem pouco com as crianças podem contribuir para o atraso na linguagem”, afirma o especialista.
 
“E não é só falar pouco com a criança que pode levar ao desenvolvimento do problema. Pais que atendem prontamente os desejos dos filhos também simplificam demais a comunicação com essas crianças. Os filhos não precisam fazer grande esforço para ter o que querem, então optam pela forma mais simples, não desenvolvendo a fala por completo. Elas acabam só desenvolvendo mais a linguagem quando entram em contato com outros tipos de ambiente onde vão se socializar e precisar desenvolver a comunicação”, completa Jaime Zorzi.
 
Audição e problemas cognitivos
 
Mas, além destes, podem haver outros tipos de alteração na linguagem. Alguns deles causados por condições ligadas à audição. “Estes tipos de alterações, muitas vezes, são diagnosticadas nos testes pré-natais, como o teste da orelhinha. Os problemas de audição vão contribuir para um atraso na fala, além de outros problemas. Caso o teste da orelhinha não tenha diagnosticado nada, mas haja um problema, essas crianças podem demorar para serem inseridas em um tratamento adequado, causando problemas de atraso na fala”, diz Zorzi.
 
Caso não haja problemas de audição (ou seja, não há alterações na “entrada” dos sons), outras condições podem estar associadas ao atraso na linguagem. Transtornos mentais – incluindo o atraso cognitivo e o autismo – são fatores que pesam nestes casos. “A linguagem é uma atividade mental e, portanto, qualquer problema dessa natureza vai impactar a linguagem. No caso do autismo, há também um impacto na dinâmica social e, consequentemente, no desenvolvimento da linguagem”, aponta Zorzi.
 
Transtorno específico da linguagem
 
“Em outros casos pode-se avaliar os circuitos motores. A criança ouve adequadamente, não tem problemas cognitivos ou mentais, é sociável, mas tem dificuldades de identificar o que ouve ou de organizar e repetir as palavras. Nestes casos pode haver o que chamamos de Transtorno Específico da Linguagem (TEL). A criança compreende e fala errado ou, em casos mais graves, mesmo a compreenção fica dificultada e ela não consegue responder adequadamente a uma questão ou ação proposta pelos pais ou cuidadores, seja na creche ou na escolinha”, afirma o especialista.
 
O TEL precisa ser acompanhado de perto, pois há a possibilidade de condições como a dislexia estarem associadas. “Pensamos por som, identificamos as palavras e as repetimos mentalmente. Na dislexia isso pode estar comprometido. Então uma criança avaliada para TEL também deve ser acompanhada para o desenvolvimento da dislexia no futuro”, diz.
 
Dicas para um ambiente mais estimulante
 
* Evite a fala infantilizada com as crianças. Usar diminutivos e repetir palavras engraçadinhas, porém erradas (a fala de “tiancinha” ou de bebê). A criança pode acabar achando que esta é a forma correta de se falar.
 
* Converse com a criança olhando para ela. Assim ela aprende a associar sons aos movimentos da boca, importante para o desenvolvimento da comunicação.
 
* Dê nome a tudo quando estiver com a criança. No banho diga o nome dos objetos e produtos usados. Brincadeiras que usam – e nomeiam – o corpo também são importantes. Ensinar a cor das coisas também. Mesmo que ela não acerte tudo, ela pelo menos aprende novas palavras todo dia.
 
* Conte histórias. Desta forma as crianças exercitam a audição, observam a fala correta, aprendem a relacionar frases e situações além de diversos outros benefícios cognitivos, afetivos e culturais.
 
* Peça para as crianças contarem histórias. Não interessa a perfeição das narrativas, mas o exercício da criança em pensar as situações, comunicá-las e experimentar a linguagem de diferentes formas.
 
* Limite a televisão. Na frente da TV as crianças ouvem muitas palavras e aprendem novas histórias. Mas é um estímulo em uma única via. Elas ficam paradas e não interagem com a TV. Para utilizar esta mídia de forma mais efetiva, desligue o aparelho após algum tempo e converse com a criança, pedindo para ela contar o que viu, por exemplo, ou então assista aos desenhos animados junto com ela, interagindo e estimulando ela a repetir palavras ou frases novas.

* Aprendizado com as babás. Crianças que ficam muito tempo com as babás podem absorver vícios de linguagens (ou até mesmo replicar problemas como a gagueira). Identificar e corrigir estes vícios é papel dos pais e é importante para que as crianças não cristalizem as palavras aprendidas erroneamente no longo prazo.
 
Fonte: Envolverde

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